Omissão do governo compromete saúde dos que ajudam recolher óleo de praias

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O governo federal tem sido omisso, irresponsável e incompetente nas medidas para enfrentar o desastre que está atingindo o litoral do Nordeste desde o dia 30 de agosto, quando manchas de óleo começaram a aparecer em dezenas de praias. Segundo relatório do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente dos Recursos Renováveis (Ibama), divulgado nesta terça-feira (29), o petróleo cru já se espalhou por 268 pontos, pelos nove estados e 94 municípios nordestinos.

Até agora, não fez uma reunião de emergência, não colocou em prática um plano para conter o óleo, não limpou rapidamente as praias afetadas e, para piorar a situação, não cuidou dos voluntários e trabalhadores que foram ajudar na limpeza das praias sem os equipamentos necessários o que coloca em risco a saúde de centenas de nordestinos.

A análise é do biólogo, oceanógrafo e professor da Universidade de Pernambuco (UPE), Clemente Coelho Júnior, que está bastante preocupado com os voluntários.

“Na prática, são pessoas voluntárias, sensibilizadas, pescadores e trabalhadores do turismo que não aguardaram orientação dos governos e partiram para limpeza, numa atitude desesperada para salvar o pão deles”, diz.

Segundo ele, acadêmicos e Organizações Não Governamentais (ONGs) da Região vêm alertando nas redes sociais, nas mídias e em palestras sobre os riscos que estes voluntários, que desesperados, solidários, sem informações e sem equipamentos de segurança, estão correndo.  

O óleo bruto de petróleo tem uma mistura de solventes extremamente tóxicos de tipo aromáticos e alifáticos, como o benzeno, xileno, tolueno, furanos, dioxinas, podendo ter metais pesados entre outras substâncias nocivas à vida.

Segundo a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o Instituto Aggeu Magalhães (IAM) e o Laboratório de Saúde Ambiente e Trabalho (Lasat), a maioria desses produtos químicos é cancerígena, podendo ainda produzir malformação fetal, abortos, distúrbios neurológicos graves, alergias, doenças hepáticas, renais, de pele, dos pulmões, do sangue entre outras.

Mas o governo federal parece não estar preocupado com a saúde do povo nordestino e muito menos com os trabalhadores. O ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio (PSL) e o vice- presidente da República, Hamilton Mourão (PRTB) disseram que a população pode entrar no mar, que não há risco para a saúde.

E, segundo Clemente, os trabalhadores da Marinha e do Exército que estão trabalhando na retirada do óleo nas praias do Nordeste não estão utilizando os Equipamentos de Proteção Integral (EPI) corretos, que são o macacão cobrindo o corpo e a pele, óculos, máscara para filtro de gases, luva de silicone e botas. 

Mesmo com todos estes equipamentos, ressalta Clemente, as pessoas não estão seguras e não devem seguir as recomendações do ministro e do vice-presidente.

“A recomendação é de que a população fique longe das praias afetadas até que sejam publicadas pesquisas sobre o assunto”, destaca o biólogo.

Clemente criticou a morosidade do governo em atuar neste crime ambiental e destacou que em abril deste ano Bolsonaro e seu ministro Ricardo Salles, do Meio Ambiente, extinguiram o Plano Nacional de Contingência para Incidentes de Poluição por Óleo em Água, que seria fundamental para estabelecer ações que não deixassem o óleo se espalhar e para solucionar o problema.

“O plano é de 2013 e em abril deste ano, via decreto, o governo acabou com conselhos e comitês que operacionalizavam estas ações para conter estes vazamentos de óleos, que pegaram todo mundo despreparado. Ninguém sabe da onde veio”, afirmou o biólogo.

“É um governo que demonstra com este ministro sua péssima gestão ambiental”, finaliza Clemente, se referindo a Salles.

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Salve Maracaípe

A saúde dos que atuam nas praias nordestinas já está comprometida

Alergia, erupções na pele, ardência nos olhos, enjoo, tontura e dor de cabeça bem forte são alguns dos sintomas apresentados pelos que estão ajudando a retirar o óleo puro do mar no Nordeste.

A informação é de Barbara Lima e Silva, liderança da mobilização e do cuidado da saúde de voluntários e membro do Movimento Pernambuco Sem Lixo na praia de Itapuama, em Pernambuco.

Ela também sentiu tudo isso, quando se solidarizou com o vazamento de óleo no litoral nordestino e trabalhou três dias retirando as manchas pretas do mar sem equipamentos e sem cuidado algum.

“Fomos ao médico e a equipe de saúde disse que a indicação é que a gente se hidrate muito e que fiquemos longe das praias, que mesmo não parecendo, pode estar contaminada e vidas podem ser comprometidas”, conta  Bárbara.

Na maioria das vezes é notável e de cor escura, mas muitas vezes, frizou Bárbara, o óleo não é perceptível.

“A gente tem alertado que todo litoral nordestino está impróprio para o banho, mas a gente tem visto na praia do Muro Alto, por exemplo, que os turistas não conseguem  enxergar o óleo na parte superior do mar e estão entrando e depois saem com o pé preto”, denuncia.

Papel da universidade

Toda a academia na Região do Nordeste tem ajudado em estudos e pesquisas sobre o vazamento de óleo nas praias do Nordeste. Além de estarem preocupados com vidas, sabem que o papel deles, que são pagos pela sociedade.

“A gente sabe do nosso papel de produzir ciência para ser utilizada para elaborar políticas públicas e planejar ações em defesa da população e tenho assistido colegas da academia preocupados e com grupos de trabalho para execução de ações visando o monitoramento da natureza, do meio ambiente e da saúde das pessoas que de alguma forma estão tendo contato com produtos tóxicos”, explicou Clemente.

Segundo ele, o governo do Estado do Pernambuco, de Paulo Câmara (PSB), tem ajudado muito e tomado para ele o papel principal neste trabalho no Nordeste e, além disso, ONGs internacionais também têm ajudado.

“O governo de Pernambuco tem ficado a frente nas ações aqui no Estado e várias ONGs estão disponibilizando recursos para pesquisas, enquanto isso o governo de Bolsonaro não deu nenhum aceno de liberação de qualquer ajuda”, denunciou Clemente.

Voluntários e voluntárias são bem-vindos

Bárbara Lima contou que os voluntários e as voluntárias podem continuar se apresentando nas regiões afetadas, porque mesmo não podendo entrar na água e recolher os óleos podem ajudar de outras maneiras.

Segundo ela, há muito trabalho que as pessoas podem ajudar.

“Tem gente vindo fazer massagens nas pessoas afetadas, relaxamentos, reikes, dando água para os trabalhadores oficiais da Marinha e do Exército. Tem gente fazendo cadastro, alimentação, sensibilização com educação ambiental e informando a população sobre os danos do petróleo na vida e na saúde das pessoas”, disse Barbara.

O movimento Pernambuco Sem Lixo informa como os voluntários podem ajudar de forma eficaz e sem riscos por meio do Instagram da mobilização @pesemlixo.

“Se quiser ajudar é só vir que tarefa tem. A gente precisa de gente todos os dias porque são muitas praias no litoral sul pernambucano e o óleo já está chegando no norte também e este trabalho não vai acabar tão cedo”, finaliza Bárbara.

Nota da Marinha do Brasil

Quando a matéria já estava sendo editada, o Portal CUT recebeu uma nota da Marinha do Brasil dizendo que os militares empregados na limpeza das praias do litoral nordestino estão utilizando os Equipamentos de Proteção Individual (EPI), conforme o preconizado nas orientações da ITOPF, consultoria internacional sem fins lucrativos que tem como objetivo a promoção de uma resposta efetiva a derrames de petróleo e outras substâncias químicas no mar.

Segundo o documento, o uso de proteção ocular e macacão tipo Tyvek não são imprescindíveis para a coleta de pelotas durante a “limpeza fina” das praias.

“Visando à salvaguarda e preservação da integridade física e saúde dos voluntários, a Marinha disponibilizou orientações do Ibama com relação ao manuseio de resíduos de óleo, prevendo o uso do EPI básico completo (luvas, botas, proteção ocular e macacão tipo Tyvek), de acordo com cada caso”, diz trecho da nota.

Não é o que mostra a foto abaixo encaminhada por Bárbara.

 

 

Bárbara LimaBárbara Lima

Nota na íntegra:

 

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